18 de outubro de 2008

Senhas

Eu não gosto de bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos
Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas
o que eu não gosto é de bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos modos
Não gosto
Eu aguento até os estetas
Eu não julgo a competência
Eu não ligo para etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades
o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos modos
Não gosto
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem...

Adriana Calcanhoto

11 de outubro de 2008

Encontros e mais encontros...

Andando pela rua, sem rumo, cansada, sem conseguir pensar, me perdi.

Esta não era a cidade em que vivi durante 18 anos. Olhava para os lados e não reconhecia as ruas, as lojas.

Começou a chover. Por mais frio que estivesse o dia, a chuva era boa, mas era preciso me proteger dos gordos pingos que começaram a cair.

Embaixo do toldo, olho para trás e vejo livros. Um sebo.

Ah!! Eu não me controlo nesses lugares, ganho horas entretida entre as orelhas dos livros. No mínimo uma hora, olhando rapidamente.

Tentei me segurar, mas não consegui, entrei.

Autores maravilhosos por preços absurdamente baratos. Que lugar maravilhoso, eu estava fascinada. Ia abraçando tudo que me interessava, mas nem tudo poderia ir para casa. Consegui sair de lá com apenas quatro livros.

Parou de chover. Precisava ir, tinha passagem marcada para dali meia hora. Lembrei que estava perdida.

Caminhei até a esquina, reconheci à minha direita, a frente do Terminal do Guadalupe.

Ri.

Ali estava eu abraçada com o que o destino me ofereceu: 2 Rubem Fonseca, Luís Fernando Veríssimo e alguns contos de Drummond.

Mesmo perdida, me encontrei.

30 de setembro de 2008

Silvo do vento...

Gosto, não controlo e às vezes tenho a sensação de que cresce.
Adoro-o no sentido literal.
Adoro, admiro.
Admiro o que desperta em mim,
o que me faz sentir
e nem se dá conta.
Nem eu.
É tudo novo.
Penso até na possibilidade do impossível.
Redundância que eu...
A
D
O
R
O
.

24 de setembro de 2008

Pasárgada

Em contrapartida aos idealistas utópicos da liberdade, fico com Voltaire:

"Vossa vontade não é livre mas vossas ações o são. Tendes a liberdade de fazer quando tendes o poder de fazer".

19 de setembro de 2008

Obra prima de 1966

Olê, olá - Francisco Buarque de Hollanda

Não chore ainda não
Que eu tenho um violão
E nós vamos cantar
Felicidade aqui
Pode passar e ouvir
E se ela for de samba
Há de querer ficar

Seu padre, toca o sino
Que é pra todo mundo saber
Que a noite é criança
Que o samba é menino
Que a dor é tão velha
Que pode morrer
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar

Não chore ainda não
Que eu tenho uma razão
Pra você não chorar
Amiga me perdoa
Se eu insisto à toa
Mas a vida é boa
Para quem cantar
Meu pinho, toca forte
Que é pra todo mundo acordar
Não fale da vida
Nem fale da morte
Tem dó da menina
Não deixa chorar
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar

Não chore ainda não
Que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
E um samba tão imenso
Que eu às vezes penso
Que o próprio tempo
Vai parar pra ouvir

Luar, espere um pouco
Que é pro meu samba poder chegar
Eu sei que o violão
Está fraco, está rouco
Mas a minha voz
Não cansou de chamar
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Ninguém quer sambar
Não há mais quem cante
Nem há mais lugar
O sol chegou antes
Do samba chegar
Quem passa nem liga
Já vai trabalhar
E você, minha amiga
Já pode chorar

15 de setembro de 2008

Óculos de grau

O bom de usar óculos é que se pode olhar para cima e ver os pingos da chuva caindo.